A ORIGEM DA BAIXA DO PAULO: MEMÓRIA DE UM ESCRAVO

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    Paulo era escravo de um senhor cujo nome não se sabe. Suponhamos que ele tenha sido propriedade de um senhor chamado José Pereira de Brito, dono da fazenda Brejo (atualmente pertencente a São João da Canabrava), pois o mesmo possuía um escravo chamado Paulo, do povo Jejê, natural da Costa da Mina (lugar que compreende, atualmente, Gana, Costa do Marfim, Togo e Benim). Esse escravo foi batizado já adulto no dia 24 de outubro de 1783, na fazenda Brejo, pertencente à paróquia de Nossa Senhora da Vitória, em Oeiras. Foram seus padrinhos Antônio Correia, solteiro, e Ana, escravos de José Pereira de Brito.
    Sabe-se que, não aguentando mais as humilhações, fugiu da fazenda de seu dono e refugiou-se em um lugar de terreno baixo e de mata fechada, localizado na então grande fazenda Bocaina, a aproximadamente 2,5 km de distância, a lés-nordeste da capela de Nossa Senhora da Conceição, de Bocaina.
    Tempos depois, o escravo Paulo foi encontrado; porém, nada se sabe sobre quem o encontrou: se foram os jagunços de seu proprietário ou algum outro fazendeiro. Também se desconhece que rumo Paulo tomou depois desse dia. Teria ficado morando naquele local? Fugiu novamente para outro local? Ou passou a trabalhar para o dono da gleba, não mais como escravo, mas como agregado?
    São muitas perguntas, e a única coisa que sabemos é que o lugar onde ele se instalou passou a se chamar Baixa do Paulo. Supõe-se que esse fato tenha ocorrido entre os anos de 1790 a 1840.
    Desconhece-se quem era o posseiro dessa terra na época — local que posteriormente passou a ser chamado de Baixa do Paulo. Sabe-se apenas que, até o ano de 1840, pertenceu ao senhor Raimundo de Sousa Brito e que, depois, foi herdada por seu filho, o capitão Ezequiel Raimundo de Sousa Brito. Após o falecimento deste, a gleba foi repartida entre suas filhas: a parte denominada Juazeiro a Lagoa das Pedras ficou para Belê, e toda a terra que ia da Baixa do Paulo até a Boa Vista ficou para Antuninha.
    A herança de Belê — e, consequentemente, de seu esposo, Antônio da Rocha Soares — foi sendo repartida em pequenas porções de terra e, hoje em dia, grande parte pertence a seus descendentes, em especial aos herdeiros de Antônio Neném, neto do casal.
    Já a herança de Antuninha — e, consequentemente, de seu esposo, José Borges de Sousa Brito — foi mantida por muitos anos, até que eles foram embora para o Maranhão. Então venderam a Boa Vista ao major Vicente Francisco de Sousa Brito. Já a Baixa do Paulo foi dividida em duas partes e repartida entre os filhos Odorico e Idalina. Liberalina, também filha de Antuninha e Zé Borges, já havia recebido sua parte, possivelmente como dote, e foi mandada para longe por seu pai. As outras irmãs Eufrosina, Rosa, Josefa e Antônia foram para o Maranhão juntamente com os pais.
    A parte de Odorico ficou para sua viúva após seu falecimento, em 1933, e posteriormente foi dividida entre seus dois únicos filhos, Luzia e Francisco. Os herdeiros deste último possuem, em comum, até os dias de hoje, a propriedade sob suas jurisdições.
    Já o esposo de Luzia vendeu a propriedade ao senhor José Claro, e atualmente ela pertence aos herdeiros deste.
    A porção de terra herdada por Idalina — e, portanto, também pertencente a seu esposo, Camilo Gastão Beleza de Araújo — foi administrada pelo casal durante anos, de onde tiravam seu sustento e renda. Após o falecimento de Idalina, ocorrido aproximadamente no início da década de 1930, a propriedade ficou para seu esposo. Posteriormente, com a morte de Camilo, em 1948, passou para seus herdeiros, que venderam suas partes. Essas terras foram sendo revendidas até chegarem aos atuais proprietários, entre os quais cabe citar os senhores Luís Valdemar, herdeiros de Pedro José de Macedo, Januário Rocha, dentre outros.
    Com a Boa Vista em mãos, o major Vicente Francisco construiu um enorme casarão. Após seu falecimento, suas posses foram divididas, ficando o casarão para sua filha Mundoca e seu esposo, Cícero Gomes, que posteriormente compraram as partes dos outros herdeiros. Em 1958, Cícero vendeu a propriedade ao cearense João Trajano Torres, e hoje essa grande propriedade pertence aos seus respectivos herdeiros.

     Escrito por Álex de Araújo Borges com base em relatos orais repassados repassados e alguns documentos encontrados. 

Álex de Araújo Borges

20 de março de 2026, às 13h e 40min.

Bocaina-PI 

 

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